Sobre as Ondas

Há algumas coisas estranhas em nossas vidas. Sempre foi complicado para mim entender o sofrimento e aceitar as mazelas desta vida. Confesso que passei muito tempo tentando entender, estudando o assunto, mas continuo completamente sem respostas. Na verdade, acho até que desisti de procurar determinadas respostas, embora um nó sempre permaneça na garganta.

É bem verdade que de tempos em tempos ondas grandes quebram sobre nossas cabeças. Às vezes, nem mesmo nos recuperamos de uma onda e mal colocamos o rosto para fora da água, buscando um pouco de ar e direção, uma outra onda quebra sobre nós, jogando-nos para o fundo, completamente impotentes.

Como a maioria das pessoas, quando os problemas se abatem, procuro alguma forma de abrigo. Nestas horas, confesso, tento voltar mais meus olhos para Deus que, na verdade, sempre foi e sempre será meu único refúgio. Na hora da dor ou mesmo quando um problema maior que nós chega, não resta muita coisa a fazer a não ser simplesmente orar e pedir ajuda ao Senhor. Podemos criticar isso, mas não há jeito. Mesmo que enquanto tudo está bem não estejamos buscando a Deus, na hora do desespero não pensamos duas vezes e nos jogamos nele.

No entanto, mesmo com certa humildade e sentimento de pequenez trazidos pela dor, lá no íntimo, lá no fundo, bem no fundo, eu sempre achei que tinha algum crédito para trocar com Deus. Eu até tentava me livrar destes sentimentos, pois em teoria eu sabia que não fazia sentido. Eu sabia e sei que tudo que vem a mim é pela graça e misericórdia de Deus, mas, mesmo assim, me via minimamente merecedor de algo. Eu talvez achasse que por me dedicar bastante nas tarefas da igreja, Deus me olharia de forma especial. Essas coisas assim. Tenho até vergonha de escrever.

No entanto, após uma crise de estresse no início deste ano, eu diminuí consideravelmente minhas atividades na igreja, talvez por não me achar em condições, já que sempre levei essas tarefas como muita reverência, temendo pela vida das pessoas que estavam diante de mim. Neste exato momento da minha vida, duas grandes ondas quebraram em minha cabeça. Literalmente uma atrás da outra. Fato que me fez perder o sono em uma noite. Foi então que me peguei orando e, para mim surpresa, não havia mais em o sentimento de que eu merecia algo. Eu não me vi com créditos diante de Deus, muito pelo contrário, enxerguei-me completamente devedor, como um pedinte endividado, com as mãos completamente vazias.

Nessa ora, eu percebi que eu só podia contar com a Graça. Eu não tinha nada para oferecer e muito menos promessas vazias para fazer, pois as mesmas eu já havia quebrado várias e várias vezes. Tudo que me restou e me resta é colocar todos os meus problemas e toda a minha dor diante do Pai, confiando exclusivamente nEle.

Não sei quando essas ondas passarão. Confesso que estou me preparando para um longo período de apneia no fundo do oceano, mas se depois dessa eu aprender que não sou nada, não tenho nada e que dependo completamente de Deus, então, que quebrem as ondas.

No que estou me tornando?

Minha estrada não é simples, mas creio que a de ninguém o seja. Não digo que é ruim. Na verdade, acho a vida boa, muito boa para ser vivida. Como diz a música:

“Te mostro um trecho, uma passagem de um livro antigo
Pra te provar e mostrar que a vida é linda
Dura, sofrida, carente em qualquer continente
Mas boa de se viver em qualquer lugar”

Sim! A vida é dura, sofrida e carente em qualquer lugar, mas, como diz outra canção: “A vida é tão rara”.

Mesmo assim, digo que viver é complexo. Existir é complicado. Perceber-se existindo, respirando, pensando, no palco da vida com diferentes atores é algo ao mesmo tempo maravilhoso e aterrador. É um convite a explorar, conhecer, sentir e, ainda assim, uma experiência de medo paralisante. É como olhar belas ondas no mar. São belas, perfeitas, poderosas. Logo me imagino no meio delas, mas um frio percorre a espinha, um medo que petrifica. É o risco.

Viver é um risco. Existir é perigoso. Se perceber neste palco é ameaçador.

E se eu pudesse sentar na plateia para me assistir atuando no palco da vida? O que eu diria do meu eu que está no palco? Será que eu o veria como um ator barato com atuações pífias? Será que veria autenticidade nas atuações? Seria que eu veria algo distante de mim mesmo? Ou será que me reconheceria no meu eu que atua?

Olhando para mim, de dentro de mim, sentado no palco da minha alma, da minha mente e do meu coração, já não sei quem sou. Já não sei o que é falso e o que é autêntico. Como em um esquizofrenismo, já não sei o que é fantasia e o que é realidade. Tornei-me o que eu não queria me tornar, mas insisto em pensar que sou o que queria ser.

Já não sei se fui além ou se fiquem aquém. Não sei se estou crescendo ou atrofiando. Não sei se estou melhor ou pior.

Alguns fardos ficaram para trás. Todavia, no que estou me tornando? Não me sinto melhor. Não me sinto mais gente, mais humano. Sinto-me mais frio, mais distante.

O que estou valorizando? O que estou priorizando? O que estou buscando?

O vazio! O vento! O Nada! A escrita na areia que a onda do mar apaga! A beleza presa ao tempo! A imortalidade do presente que já não existe!

O que estou buscando? O vazio! O nada! O vento!

Lições de um velório

Comecei o primeiro dia de 2014 em um sepultamento. Era o pai de uma amiga da minha esposa. Nossa presença lá se restringia a dar apoio à amiga, nada mais. Ainda assim, ao mesmo tempo, vivenciei uma cena comum e incomum. Se por um lado, eu nunca tinha ido a um “evento” fúnebre em um dia que costuma ser festivo; por outro, todavia, percebi que não há nada de especial no primeiro dia do ano, pois nem a morte pede licença. Para muitos era um feriado, mas, para os coveiros, um dia de trabalho normal. Na verdade, muito trabalho, pois, só enquanto lá estive, vi três corpos sendo levados para sepultura.

No entanto, algo me chocou de maneira especial e me incomodou de maneira tal que fui obrigado a escrever um texto para organizar as ideias e tentar entender o incompreensível. Desde o início, percebi um grupo de religiosos na sala do velório, o que achei bonito e positivo. Eram pessoas da igreja de um parente do falecido que estavam ali para apoiar. Eis aí um lindo papel que muitas igrejas prestam.

No decorrer dos acontecimentos e observando alguns fatos, comecei a me perguntar se o papel que aquele grupo de religiosos estava prestando era realmente positivo. A dor da família era realmente grande. A esposa do falecido chorou até desmaiar. Ela não conseguia compreender. Dizia que não saberia como viver sem o seu marido. Várias vezes ouvi o seu grito de dor: “Por quê, meu Deus?” Igualmente, outras pessoas da família repetiam, em prantos, o mesmo grito. E ouvi várias crianças, provavelmente, netos do falecido, perguntando o porquê de aquilo estar acontecendo.

Foi então que começou o show de respostas prontas e praticamente indiferentes à dor da família. Alguém parou ao lado da viúva e disse: “Foi a vontade de Deus, que o levou para ele não sofrer muito.” Como quem nem escutou, a viúva simplesmente continuou seu pranto e, meio que não suportando a dor da perda, desmaiou. Quando recobrou a consciência, simplesmente repetia: “Por quê, meu Deus?”

Foi duro ver e ouvir alguém dizendo para uma criança inocente que “Papai do céu quis levar o vovô para morar com ele”. Ouvindo as palavras, tudo que a criança podia fazer era continuar seu choro. Para piorar a dor, ela descobriu que Deus era o culpado pelo seu sofrimento. Talvez, por isso, ela tenha chorado ainda mais depois dessas palavras.

Eu já estava incomodado com essas cenas que insistiam em se repetir, mesmo assim, nada me preparou para o que veio a seguir. Um pastor foi chamado para trazer uma palavra para os familiares e amigos do falecido. Eu pensei que ele traria uma palavra de consolo, no entanto, eu vi alguém subindo em um pedestal, se colocando em posição de superioridade, como se nem mesmo a morte o afetasse. Suas palavras eram proselitistas. Ele parecia ignorar a dor e “aproveitou” o momento para falar de sua fé.

O problema é que ele falava com arrogância. Falava de pecado, morte. Tentava encaixar um plano de salvação. A família enlutada, em sua maioria longe dos arraiais da igreja, parecia não escutar. Limitavam-se a chorar. Os religiosos que acompanhavam o pastor faziam questão de dizer: “Amém”, “Aleluia”, após cada frase de efeito. Ele falou, falou, e não disse nada. Ao final, fazendo uso de uma cadeia hierárquica eclesiástica que pouco fazia sentido ali, chamou um presbítero para orar. Não parecia uma oração, mas sim uma pregação, daquelas em se cita a bíblia para Deus. Perdeu a oportunidade de pedir por consolo e pelo alívio da dor experimentada pela família. A oração, seguindo o estilo do pastor, foi arrogante e prepotente, estava mais preocupada em “evangelizar” do que em consolar.

É interessante que quando me dirigi ao carro para ir embora, encontrei uma propaganda do cemitério, oferecendo-me a oportunidade de comprar uma cova. No mesmo instante, eu disse a minha esposa: “A administração do cemitério está igual àquela igreja. Não respeitam nem a dor das pessoas. Não perdem uma oportunidade para fazer negócio”.

Sabe, há anos questiono o que muita igreja faz em sepultamentos. Ouvi várias mensagens pregadas em velórios e a maioria esmagadora delas possuía um tom proselitista. Eu já vi várias pessoas dizendo: “Temos que aproveitar, pois nessas horas as pessoas estão mais abertas para ouvir o evangelho”. Eu questiono seriamente esta tese. Ouvir? Quem sente dor simplesmente sente, não escuta nada. A pessoa não quer alguém para falar, muito menos fazer propaganda de religião, mas quer alguém para compartilhar a dor. Eu lembro que no velório do meu avô um pastor chegou sorrindo. Eu pensei comigo na época: “Por que esse desgraçado está sorrindo? Será que ele não poderia pelo menos fingir que sente algo?” Na verdade, ele fingia sim, tentava fingir que estava tudo bem. Mas, para que fingir? Para que tentar passar um clima que não existe?

O problema todo é que boa parte das igrejas não vai a um velório para se solidarizar com a dor e oferecer um pouco de consolo, nem que seja apenas um ombro para chorar. Na verdade, vão para fazer caridade e proselitismo travestidos de evangelismo barato. Quando alguém faz caridade, simplesmente se mantém em uma posição de superioridade, olhando de cima para baixo, como se estive bem e, aquele que recebe a sua caridade, numa pior. Quando alguém se solidariza com a dor do outro, simplesmente, se coloca ao lado do sofredor. Não oferece respostas prontas e sem sentido. Não oferece posições doutrinárias. Não repete cartilha de teologia e nem revistinha de EBD. Quando nos solidarizamos, simplesmente nos oferecemos para sofrer junto.

Boa parte de nós não quer sofrer a dor do outro. Por isso, é melhor agir como aqueles religiosos do velório, cuja espiritualidade os havia tirado a humanidade. É melhor nos acharmos melhores por termos uma fé. É melhor nos acharmos superiores por crermos num conjunto de dogmas. É melhor olhar de cima para baixo do que sentar ao lado para chorar junto.

Quando eu olho para Jesus vejo alguém que se esvaziou de sua divindade para ser plenamente humano e se solidarizar com a nossa dor e sofrimento. Ele levou isso às últimas consequências, chegando ao ponto de assumir a morte que era nossa. Enquanto esteve entre nós, chorou diante da morte de um amigo, tanto pela dor que Ele mesmo sentiu, quando por solidariedade ao sofrimento das irmãs do morto. Jesus simplesmente sofria com os que sofriam. Jesus nunca fez caridade e só mostrou superioridade diante dos caridosos religiosos do seu tempo. Jesus se solidarizava.

Diferentemente de Jesus, nós gostamos de parecer espirituais, quase seres diferentes, iluminados, quase deuses. Esse sempre foi o pecado mortal da humanidade: desejar ser como Deus, igual a Deus. Jesus se esvaziou da divindade e foi plenamente humano e, sendo achado em forma humana, pode mostrar o que significava verdadeiramente ser Deus. Gosto de quando Leonardo Boff diz: “Jesus era tão humano que só podia ser Deus”. Infelizmente, a igreja parece fazer propaganda contra o humano. Querem ser “espirituais” e acabam vivendo como que alienados. Não tenho tempo para explicar, mas a mensagem do velório foi mais platônica do que cristã. Infelizmente, a maioria dos púlpitos das igrejas prega mais Platão do que Jesus.

Na hora da dor, a igreja quer levar Jesus em forma de palavra e versos decorados, tentando evangelizar. No entanto, já deveríamos ter aprendido que não faz sentido levar simplesmente o nome de Jesus ou alguns conceitos, precisamos ser Cristo para as pessoas que estão sofrendo. Precisamos sofrer junto, solidarizar e não fazer caridade, muito menos evangelismo barato.

Mas, sabem o que mais me impressionou positivamente? Duas cenas protagonizadas por pessoas que não criam em Deus. Em uma delas, um tio explicava para o sobrinho que “não conseguimos entender a morte, mas precisamos nos acostumar, pois faz parte da vida.” Ele dizia que “durante a vida veremos várias pessoas que amamos morrendo, por isso era preciso aceitar.”

Eu sei que é impossível aceitar a morte ou mesmo se acostumar. No entanto, o tio ateu não colocou a culpa em Deus e muito menos deu respostas prontas e sem sentido. Simplesmente assumiu que não conseguimos entender.

A outra cena foi impressionante. Após o caixão ter sido colocado no solo e a sepultura fechada, as pessoas ficaram paradas, olhando, sem dizer uma palavra. Foi aí que uma das filhas do falecido quebrou o silêncio e disse: “Gente! Se meu pai estive vivo iria pergunta o que vocês estão fazendo aí parados. Ele diria: ‘vão viver a vida de vocês porque eu vivi a minha e muito bem.’”

Instantaneamente, lembrei os apóstolos olhando Jesus subir ao céu em Atos 1. Eles ficaram parados, sem dizer nada. Até um anjo disse a eles: “O que vocês estão fazendo aí parados?”

Após as palavras dessa filha, eu percebi que um peso saiu do semblante das pessoas. Todas se sentiram mais soltas. A dor continuava, as lágrimas ainda regavam o solo, mas a página podia começar a ser virada. Me pergunto:  por que isso não aconteceu através das palavras do pastor e da oração do presbítero? Por que as pessoas não se sentiram consoladas após a pregação? Há momentos em que Deus fala mais por uma pessoa de fora da igreja do que por um pastor que arrogantemente diz estar falando em nome dEle.

 

 

O PARADOXO DAS EXPERIÊNCIAS RELIGIOSAS

Há poucos dias, eu conversava com um amigo que, aparentemente, não tem nenhuma religião. Ele favava de uma visita feita a um templo budista, levado pelo seu irmão mais velho. Em um momento, chegou a um lugar no qual as pessoas dedicavam algum tempo para fazer seus pedidos. Foi então que ele percebeu que havia tanta coisa boa acontecendo em sua vida e, assim, passou aqueles momentos agradecendo. Ele falava de ter tido uma experiência magnífica. Sentido uma energia positiva. Por fim, disse ter experimentado uma sensação que gostaria de repetir várias vezes.

Quando ouvi a palavra “repetir”, imediatamente, eu disse: “Cuidado, pois esse é o mal das religiões. As pessoas tem uma experiência isolada e querem repetir outra vez. Acontece que experiências não se repetem. São únicas. Quanto mais alguém tenta repetir uma experiência, uma sensação, mais se embola em rituais infinitos e, no fim, se sente exaurida e frustrada. Você só experienciou as sensações descritas porque não estava procurando experiências. Estava livre para o que viesse. A partir do momento em que você procurar repetir uma experiência específica, estará se fechando para novas experiências.”

É claro que meu amigo ficou assustado e terminamos a conversa ali mesmo. No entanto, o que falei ao meu amigo serve também para qualquer religião, inclusive para o cristianismo. Ou melhor, principalmente para o cristianismo. Bato na tecla: o problema não é a experiência. Quanto a isso não tenho o que dizer. O problema é tentar repetir a experiência. É tentar sentir de novo o que se sentiu em um momento específico. Por que isso é um problema?

Simples, ao tentar se repetir uma experiência religiosa é comum tentar recriar o ambiente em que o fato ocorreu primeiramente. É comum tentar voltar ao mesmo lugar, ouvir as mesmas músicas, as mesmas palavras, ler o mesmo livro. Na segunda vez, a pessoa ainda sente algo, talvez um eco do que ocorreu antes, mas logo percebe que a intensidade não fora a mesma. Instintivamente, tenta-se entender o que deu errado e um novo ciclo litúrgico se inicia. Tenta-se aumentar a intensidade, adiciona-se itens ao ritual. E no fim, se a pessoa for honesta consigo mesmo, na busca por experiências, o máximo que encontrou foi o vazio. Domingo após domingo, culto após culto, louvorzão após louvorzão, livro após livro, madrugas em montes. Nada disso parece satisfazer. Nada disso parece fazer a pessoas sentir o que ela quer sentir. Ela quer mais. Busca mais. Mas, honestamente, ela só tem o vazio. Só tem rito. Só tem liturgia. Só tem religião. Pouco de Deus. Quase nada de sagrado. A experiência com o divino se torna apenas uma lembrança do passado longínquo.

O pior é que quem está em busca de experiência se torna presa fácil para modas que aparecem. Seja uma nova campanha que promete fazer você chegar mais perto de Deus. Seja ir a um monte orar. Seja um pastor famoso que aparece na mídia e todos dizem que tem uma palavra poderosa. Seja um final de semana que promete ser um encontro tremendo com Deus. Seja entrando num ritmo doentio de atividades religiosas. Seja seguindo manuais de espiritualidade que negam a vida e promovem o sectarismo. Seja doando dinheiro para pregadores inescrupulosos. Seja indo a igreja quase todo dia…

Por fim, buscar experiência nos leva a simplesmente mergulhar no mundo dos ritos religiosos. Dessa forma, negamos a vida, a existência, as coisas boas e belas que estão a nossa volta. Perdemos a chance de experienciar Deus no cotidiano, nos encontros com amigos, na risada livre e solta, no amor dedicado a quem amamos, no pão conquistado com o suor dos nossos rostos. Para mim, desculpem a franqueza, buscar experiências religiosas nos faz perder a chance de experimentar, de fato, a presença do Divino, do Totalmente Outro, do Luminoso, de Deus, em cada segundo das nossas vidas.

O Paradoxo da Fé

Eparadoxoxistem alguns paradoxos na bíblia. Creio que não pelo texto em si, mas pela nossa dificuldade natural de interpretação.  Por exemplo, pensemos na fé. O que é fé? Como definir? Como entender? Inicialmente, os conceitos parecem totalmente subjetivos, internos. O próprio autor da carta aos hebreus diz simplesmente que a “fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.” Em outras palavras, a fé seria aquilo que você tem e não sabe definir exatamente, mas que prova algumas coisas que você acredita que são verdadeiras.

- Deus existe?

- Existe, claro!

- Como você prova?

- Não posso provar, apenas sei que existe!

-  Mas como você sabe?

-  Pela fé, óbvio!

- Mas o que é fé?

- “É a prova das coisas que não vemos.”

inceptionNo entanto, os textos sagrados não nos incentivam a ficar em paradoxos. No caso da fé, por exemplo, Tiago nos convida a tirar a fé da subjetividade e colocá-la no campo da prática. Ele diz que de nada adianta ter fé, mas não ter obras. Para Tiago, não faz sentido pensar na fé no campo da opinião pessoal, como uma força ou qualquer outra coisa que possa mover o mundo espiritual em nosso favor. Ao contrário, a fé, para ele, só faz sentido quando o mundo espiritual nos move em nosso próprio mundo para mudar a realidade das pessoas que aqui sofrem.

Tiago nem mesmo está preocupado com a fé como caminho para salvação. Ele argumenta: “Porventura a fé poderá salvá-lo?” Ele diz que fé como sinônimo de acreditar e crer em Deus não é suficiente, já que os próprios demônios crêem e estremecem. Diferentemente de nós, homens, os demônios nem sequer duvidam da existência de Deus.  Realmente, para Tiago, crer não é suficiente.

Tiago avança bastante na discussão sobre o tema porque ele deixa de considerar a fé como um elemento capaz de provar o que não se pode provar e passa a considerar o que fazemos como um elemento que prova se temos ou não fé. Não é que Tiago esteja contradizendo o apóstolo Paulo quando este diz que “somos justificados pela fé”, mas é que para Tiago se não temos obras nem mesmo temos a fé que pensamos ter. Se não praticamos, não temos fé. Só dizer que acredita não vale, não é suficiente.

Por que Tiago pensa assim? Porque para ele a fé é algo tão forte que necessariamente tem que mover aqueles que a tem para fazer o bem ao próximo. Se achamos ter fé, mas não somos movidos a fazer o bem ao próximo, temos tudo menos fé. Temos crendices, conceitos religiosos, posições doutrinárias, costumes litúrgicos, hábitos piedosos, mas nunca a fé.

É interessante ver que com o passar do tempo disfarçamos essa questão das obras e reduzimos tudo a simplesmente crer. Durante muito tempo, quando se falou em obras, o tema ficou reduzido a obras de religião. Por exemplo, um bom crente, que tem fé, é aquele que vai a todos os cultos, canta, participa de todas as programações da igreja, não falta uma aula da EBD, está em todas as vigílias, correntes, etc.

Tiago, todavia, não fala em termos de religiosidade, pois para ele “a religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo.” Tiago, mais uma vez inverte os conceitos tradicionais. Religião para ele não é uma forma de convencer Deus a fazer o que queremos que Ele faça, mas é deixar o próprio Deus nos usar para cuidarmos dos pequeninos deste mundo. Religião, para ele, não é doutrina, nem liturgia e muito menos moralidade julgadora, mas ação objetiva capaz de mudar a vida das pessoas deste mundo, aqui e agora.

Talvez por isso, Jesus tenha dado a entender, em algumas ocasiões, que teremos algumas surpresas no céu. Em Mateus 7, Ele diz que “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” Repararam? “Dizer: Senhor, Senhor!” tem a ver com confessar, crer, e isso fica em marcante contraponto com a ação: “fazer a vontade do pai”. Por isso Ele diz: “nem todo aquele”, pois há os que dizem “Senhor, Senhor!” e conjuntamente fazem a vontade do Pai. Melhor ainda, é fazendo a vontade do Pai que dizemos com as nossas vidas: “Senhor, Senhor”.

Em outra ocasião, ainda mais inusitada, Jesus fala que no dia do juízo dará as boas-vindas aos que estiverem a sua direta, pois estes lhe deram água, comida, roupa e abrigo quando Ele passou por dificuldades. No entanto, estes que estão sendo recebidos no Reino dirão surpresos: “‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?” Então, para sacramentar, Jesus diz a eles: “Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram.”

As duas cenas parecem ter o mesmo propósito: mostrar que o caminho para Deus não é o caminho da religião de crença vazia no sobrenatural, mas se aproxima de uma fé que gera ações práticas capazes de mudar nossa própria realidade. Quem confia simplesmente nas confissões religiosas corre grande risco de se surpreender no Reino de Deus.

No final das contas, continuo sem saber definir o que é fé, mas passo a entendê-la melhor. Meus parâmetros para “medir” se tenho muita ou pouca fé mudaram radicalmente. Não tenho muita fé se creio com todas as minhas forças que Deus vai fazer o que desejo que Ele faça, mas sim, se O deixo atuar em minha vida para que eu faça aquilo que Ele quer que eu faça. Não tenho muita fé se cumpro todas as minhas obrigações religiosas, mas sim, se demonstro um amor real e objetivo para as pessoas que estão diante de mim. Não posso definir a fé, mas posso fazer o bem. A fé pela fé só prova coisas para mim. A ação que vem da minha fé, prova aos outros que tenho fé.

Sobre as Manifestações

manifestação 1Há muito sendo dito a respeito das manifestações que estão ocorrendo pelo Brasil. De um lado, pessoas comemorando porque o “povo” parece finalmente acordar, saindo de uma apatia que durava décadas. Por outro lado, há quem diga que há um pequeno grupo manipulando a massa com fins políticos. Ao meu ver, creio que há o exagero na violência, embora, eu seja obrigado a confessar que gostei de ver o antro de porcos chamado ALERJ sendo invadido, bem como a tentativa de invasão do celeiro de ladrões e covardes chamado Congresso Nacional. Entendem a dualidade? Eu gostei de ver, mesmo sendo contra a violência. Talvez porque essa raça de políticos atuais, salvo uma meia dúzia, talvez menos, não desça mais em minha garganta.

Sobre a manipulação, o povo como um todo foi manipulado por praticamente 12 anos seguidos durante os governos Lula e Dilma. Na verdade, a classe média foi a maior manipulada. A razão é simples: os ricos ficaram mais ricos, por exemplo, os bancos privados nunca lucraram tanto durante os dozes anos supostamente governados por um governo de esquerda. Os ricos só ganharam e, quando pagam impostos, pagam como a classe média. Na outra ponta temos os mais pobres. Uma gente que nunca teve nada, nem mesmo o que comer. Para eles o governo deu o bolsa família, garantido eterna fidelidade eleitoral. Mas, em tese, eles continuam como estão, pois os políticos os querem assim. Não houve um programa que os ensinasse a pescar. O governo os manteve cativos. Tanto os mais ricos como os mais pobres só ganharam. Na verdade só os ricos ganharam, os pobres pensam que ganharam, pois, como não receberam a educação que lhes é garantida pela constituição, não sabem a diferença entre ganhar e perder.

manifestaçãoMas, a classe média é que foi realmente manipulada. Aos ricos, mais dinheiro e menos impostos. Aos pobres, esmola. À classe média o governo deu uma única coisa: CRÉDITO. Com ele essa classe pensou que estava realizando o “sonho americano”. Comprou carro em 60 vezes, apartamento em 360 vezes, fazendo a especulação imobiliária chegar aos limites do inimaginável, pois uma apartamento de 60 m2 no Rio de Janeiro é mais caro que uma casa em Miami. Com os cartões de crédito a classe média passava os finais de semana no shopping e comprava passagens de avião em 10 vezes para visitar Miami, trazendo camisas da Holister para provar que esteve na terra do Tio Sam. Mas o crédito é uma falsa ilusão de riqueza. No fim, os bancos estão ganhando com os juros, pois não existe essa história de 12 vezes sem juros. O governo leva o imposto decorrente da operação de crédito e ainda o importo sobre cada produto comprado pela classe média. Os banqueiros enriquecem, os cofres do governo enchem e o dinheiro é canalizado para as grandes construtoras e outras empresas lobistas, que devolvem aos políticos em forma de financiamento de eleições. Uma pequena parte vai servir de esmola no Bolsa Família.

manifestação 2E o que a classe média ganhou com tudo isso? Apenas dívida. DÍVIDA! Os dados estão aí para mostrar que a classe média está endividada. Se vendo endividada, percebe que não pode mais consumir como antes e vê que o sonho americano se transformou em pesadelo. O vazio existencial que antes era preenchido nos templos sagrados do capitalismos – os Shoppings, agora parece maior. Essa classe começa a buscar algo para preencher o buraco deixado. Alguém aparece propondo protestos e essa classe se lança nas ruas, deixando escapar toda uma energia concentrada. Ideologia, a classe média quer uma para viver. Não é mais possível viver iludido com o capitalismo de consumo, que enriquece banqueiros e empreiteiros, mas devasta o nosso planeta. O que falta agora é alguém para oferecer um rumo, uma direção, canalizar as forças. Talvez esse seja o começo do fim da era de manipulações que vivemos nos últimos doze anos, na qual os ricos ficaram mais ricos, os pobres foram comprados com comida e a classe média pagou a conta. No fim, os únicos que se deram bem foram os ricos e os políticos. Vamos para as ruas, mas não precisamos de violência. Vamos manter a insatisfação em alta. Vamos provar nas urnas que não estamos felizes com inflação, juros altos, pouco crescimento, serviços públicos de péssima qualidade e caros, falta de hospitais, educação de péssima qualidade etc.

Por um novo caminho

mulçumanoNão faz muito tempo, talvez uns três ou quatro anos, eu defendia a ideia de que o cristianismo deveria ser mais unido. Eu lembro que ouvia piadas do tipo: “Tranque um gato, um cachorro e um passarinho em uma gaiola que eles vão aprender a conviver, mas tranque um batista, um presbiteriano e um pentecostal em um quarto que em pouco tempo eles vão se matar”. Eu lembro também de ter presenciado uma palestra com um mulçumano enquanto eu era do seminário. Na época, perguntamos para ele quais eram as razões pelas quais o islamismo crescia tanto pelo mundo. As palavras dele ainda ecoam em minha mente: “Não temos praticamente nem divisões nem dogmas, o islamismo se divide em no máximo dois grandes grupos”.

maos-unidas1Para mim, na época, estava claro que o cristianismo perdia forças, penetração e relevância no mundo graças, em boa medida, pelas múltiplas divisões que existem dentro dele. Divisões essas derivadas de múltiplas compreensões e interpretações das escrituras sagradas. De fato, não sou contra a diversidade, mas quando você divide demais algo que era para ser unitário, a ponto de causar grandes contradições internas, as coisas começam a desandar. Imagine alguém que não nasceu em um lar cristão e que resolve, por hipótese, procurar uma religião. Suponhamos que ele entre em um domingo numa igreja batista, no outro em uma presbiteriana, no outro em uma neo-pentecostal e, em outro, em uma que nem podemos classificar. O que ele pensará do cristianismo?

Quando_se_vive_dividido,_sofre-se_sempre!Depois de um tempo, eu passei a perder a fé numa possível união entre os multifacetados seguimentos cristãos. Ao olhar alguns casos esdrúxulos, principalmente oriundos do evangelho midiático, comecei a questionar se, de fato, eu fazia parte do mesmo grupo. Eu comecei a ficar chateado porque, por onde eu passava, as pessoas pensavam que eu era como aquelas pessoas da mídia. Se pregando, como um pastor que só pensa em dinheiro. Se ouvindo, como alguém facilmente engado por promessas vazias. Não! Eu nunca gostei de ser tratado como eles, confesso!

Por isso, comecei a dizer que eu não era evangélico, apenas cristão, pois esses grupos se afirmam como evangélicos e eu não queria ser contado no mesmo saco que eles. Comecei, também, a tecer duras críticas e, literalmente, me coloquei em posição de combate contra eles. Para mim, era claro que eles se tratavam de lobos desfaçados de ovelhas, joio no meio do trigo.

dualidadeEu confesso que encarei uma dualidade muito forte quando me deparei com versos que diziam para “não julgar” e com outros que diziam para “tomar cuidado com falsos profetas”. Ora, como vou saber quem é um falso profeta a menos que eu tenha suas características e exerça um certo julgamento para discernir? Não é uma questão fácil. Alguns mentores meus apontam que há uma diferença entre julgar e discernir. Eu concordo, mas admito que há uma linha muito tênue entre um e outro. Como saber o que está no coração de alguém? Como saber suas intenções?

frutoUm saída, seria olhar os frutos, pois “pelos seus frutos os conhecereis”. No entanto, há frutos que não são facilmente perceptíveis. Paulo chega a dizer aos coríntios que ele plantou e Apolo regou, mas quem viu os frutos? Que tipo de fruto tinha em Coríntio já que Paulo mesmo diz que não pode falar a eles como a espirituais, mas como carnais? Às vezes leio biografias de missionários que passaram anos no campo, mas os resultados mensuráveis humanamente são quase nulos. Seriam esses missionários infrutíferos? Em um caso ou outro vejo frutos incontestáveis na vida de irmãos, pastores, igrejas, ministérios. Mas os vejo de acordo com minha percepção humana. Como será que Deus os contabiliza?

Por conta disso tudo e mais algumas coisas, eu vou tentar voltar há três ou quatros anos e retomar meus pensamentos sobre o assunto a partir do prisma da unidade, não da unidade burra e cega, mas da unidade que entende a diversidade, com seus pontos positivos e negativos. Algumas outras razões me levam a isso.

juizAlém do fato de eu me sentir incapaz de julgar, pretendo deixar o discernimento nas mãos de Deus e nas mãos da consciência de cada um. Eu mesmo jamais me submeterei a algumas coisas, dentre elas o evangelho da prosperidade, mas pretendo apenas ensinar o caminho que acredito sem ficar tacando pedras. Isso porque, tenho que reconhecer, que igrejas neo-pentecostais chegaram em lugares e pessoas que gente como eu jamais chegaria. No meu íntimo, eu gostaria que ninguém recebesse o evangelho por um viés que não o da Graça do Crucificado, mas às vezes conto que a graça será maior que os conceitos e as formas, pois de uma forma ou de outra, como diz Paulo, o que importa é que Cristo está sendo anunciado. Eu confesso que não é fácil para mim escrever isso.

imagesEu mesmo tinha e tenho uma crise com as fortes políticas denominacionais existentes em minha própria denominação. Por conta disso resolvi nunca chegar perto dessas questões. No entanto, sempre falei mal, o que não julgo correto da minha parte. Tenho o direito de não concordar com as politicagens e de me manter longe dela, da mesma maneira que não gosto de levantar bandeiras denominacionais. Mesmo assim, meu coração de pedra se quebranta, quando eu vejo que, apesar das politicagens, eles mantém um programa chamado “Cristolândia” cujo objetivo é cuidar e recuperar viciados em Crack. Hoje, até mesmo os governos reconhecem os benefícios sociais da “Cristolândia”.

De minha parte, já que estamos falando de julgamento, se eu julgasse a mim mesmo eu me condenaria. Quais são os meus frutos? O quanto de Jesus tenho demonstrado a quem está próximo a mim? Não! Não sou melhor que ninguém! Aliás, não faz o menor sentido comparar condenados com condenados, estão todos sentenciados.

images (1)A experiência com o fesembengalas.com e com a página do facebook me fez provar boas doses de julgamento. Recebi vários e-mails enfurecidos me chamando de herege, dizendo que eu havia abandonado a sã doutrina e infinitas outras coisas. Enquanto me chamavam de herege e diziam que eu não seguia a doutrina, eu não me importava, pois quem lê o que escrevo sabe que acho essas questões ligadas demais ao controle político institucional das igrejas. Todavia, começaram a duvidar se sou ou não cristão. Isso me fez pensar. Eu senti um pouco, justamente porque eu havia parado de me nominar evangélico para me dizer simplesmente cristão. Mas, em fazendo isso, era como se eu considerasse, talvez meio sem querer querendo, os evangélicos de mídia como não cristãos. É como seu eu tivesse provado uma dose do meu próprio veneno.

images (2)Continuo não me preocupando com coisas pequenas como, por exemplo, quando me chamam de liberal. Se quem me chama de liberal parasse para estudar a teologia do século XIX para saber de fato o que é um teólogo liberal, passaria a me chamar de fundamentalista. Não me importo com julgamentos infundados. Mas, eu sei que fiquei profundamente sentido quando duvidaram do fato de eu ser cristão.

images (3)Tudo o que eu sei é que Cristo tem me salvado de mim mesmo a cada dia, pois já me salvou da morte da eterna. Sei que vivo no mar das tensões humanas, no mar das contradições e de querer fazer um bem e acabar fazendo um mal que não quero. Sei que vivo na tensão entre o que sou e o que eu deveria ser, mas ainda não sou. Mas sei que já não sou o que era e estou longe de ser o que haverei de ser. Em minha caminhada, me vejo como um Jacó lutando com Deus pelo controle da minha própria vida. Tem horas que parece que me entrego e tem outras que eu penso que retomei controle. Há momentos que parece que caminhei bastante em direção ao alvo e, em outros, parece que em voltei lá no início da caminhada. Já tentei me livrar de Deus, mas não consegui. Já tentei abandonar o evangelho do Crucificado, mas não dá. Tem horas que vejo o que preciso mudar, o quanto que preciso ser transformado e me desanimo. Tem coisas que eu sei que deveria fazer e não faço, mas olhando para trás vejo coisas que jamais imaginaria que faria e fiz (em Cristo). Vejo mudanças em mim que jamais pensei que aconteceriam, mas quando eu menos esperei, aconteceram (em Cristo). Estou bem longe de dizer como Paulo: “Vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim” e “Sejam meus imitadores como eu sou de Cristo”. Estou longe, reconheço, bem longe disso. E não sei se um dia conseguirei dizer.

oracao-51Ainda lembro de quando eu era um adolescente e chorando, sozinho em casa, orava intensamente, de joelhos, pedindo a Deus que mudasse o que havia de ruim em mim. Eu lembro que dizia que não estava pedindo dinheiro ou cura de doenças, mas queria ser mudado. Às vezes acho que Deus não ouviu; em outras, acho que ele está aguardando a hora de agir; mas, tenho gostado de pensar que Ele está, de uma forma ou de outra, agindo. Pois é na vida, nos contados, no sofrimento, nas escolhas, que Ele molda e transforma nosso caráter, nosso ser.

uniaoPor isso, quero tentar não julgar ninguém, mesmo que eu jamais venha a seguir seus ensinamentos. Quero acreditar que, começando com as minhas imperfeições e de mãos dadas com diversos cristãos imperfeitos, poderemos sinalizar melhor o Reino de Deus. Seja um fundamentalista, um liberal, um progressista, um batista, um calvinista, um pentecostal, um neo-pentecostal, um católico, qualquer um que se reconheça como cristão a despeito dos que julgam se achando mais cristãos – como eu me achava. Quero acreditar que poderemos ser um só corpo que se une através dos dogmas fundamentais do amor e do serviço, deixando de lado os infinitos debates que duram séculos e causaram mais divisões do que união.

fe sem bengalasContinuarei manifestando minhas percepções limitadas e imperfeitas em busca de uma Fé Sem Bengalas. Peço que não julgue sem antes conversar comigo e pedir maiores explicações. Manifestarei minhas opiniões sobre temas sem julgar a opinião do outro. Em muitos momentos serão contrárias a algumas opiniões ou conceitos, mas, se você não concordar, sinta-se livre para comentar e para falar comigo. Do diálogo advém efeitos colaterais positivos para todos nós. Eu, particularmente, tenho aprendido muito dialogando. Existem percepções polêmicas, mas que não são o centro, todavia com cuidado e respeito podemos debater e construir sem nos destruir e dividir mais do que já estamos todos. Vamos tentar um novo caminho: em vez de batermos uns nos outros vamos deixar o julgamento nas mãos de Deus, assumir nossas limitações, e nos unir para tentarmos ser, de fato, um só corpo.

Jesus barrado no conclave dos Cardeais

boff2Cardeais da Igreja Católica vieram de todas as partes do mundo, cada qual carregando as angústicas e as esperanças de seus povos, alguns martirizados pela Aids e outros atormentados pela fome e pela guerra. Mas todos mostravam certo constrangimento e até vergonha pois vieram à luz os escândalos, alguns até criminosos, ocorridos em muitas dioceses do mundo, com os padres pedófilos; outros implicados na lavagem de dinheiro de mafiosos e super-ricos italianos que para escapar dos duros ajustes financeiros do governo italiano, usavam o bom nome do Banco Vaticano para enviar milhões de Euros para a Alemanha e para os USA. E havia ainda escândalos sexuais no interior da Cúria bem como intrigas internas e disputas de poder.

Face à gravidade da situação, o Papa reinante sentiu que lhe faltavam forças para enfrentar tão pesada crise e constatando o colapso de sua própria teologia e o fracasso  do modelo de Igreja, distanciado do Vaticano II, que, sem sucesso, tentou implementar na cristandade, acabou honestamente renunciando. Não era covardia de um pastor que abandona o rebanho mas a coragem de deixar o lugar para alguém mais apropriado para sanar o corpo ferido da Igreja-instituição.

Finalmente chegaram todos os Cardeais, alguns retardatários, à sede de São Pedro para elegerem um novo Papa. Fizeram várias reuniões prévias para ver como enfrentariam este fato inusitado da renúncia de um Papa e o que fariam com o volumoso relatório do estado degenerado da administração central da Igreja. Mas em fim decidiram que não podiam esperar mais e que em poucos dias deveriam realizar o Conclave.

Juntos rezaram e discutiram o estado da Terra e da Igreja, especialmente a crise moral e financeira que a todos preocupava e até escandalizava. Consideraram, à luz do Espírito de Deus, qual deles seria o mais apto para cumprir a dificil missão de “confirmar os irmãos e as irmãs na fé”, mandato que o Senhor conferira a Pedro e a seus sucessores e recuperar a moralidade perdida da instituição eclesiástica.

Enquanto lá estavam, fechados e isolados do mundo, eis que apareceu um senhor que pelo modo de vestir e pela cor de sua pele  parecia ser um semita. Veio à porta da Capela Sistina e disse a um dos Cardeais retardatários: ”posso entrar com o Senhor, pois todos os Cardeais são meus representantes e preciso urgentemente falar com eles”.

O Cardeal, pensando tratar-se de um louco, fez um gesto de irritação e disse-lhe benevolamente: “resolva seu problema com a guarda suiça”. E bateu a porta. Então, este estranho senhor, calmamente se dirigiu ao guarda suiço e lhe disse:”posso entrar para falar com os Cardeais, meus representantes”?

O guarda o olhou de cima para baixo e não acreditando no que ouvira, pediu, perplexo, que repetisse o que dissera. E ele o fez. O guarda com certo desdém lhe disse: “aqui entram somente cardeais e ninguém mais”.

Mas esta figura enigmática insistiu: “eu até falei com um dos Cardeais e todos eles são meus representantes, por isso, me permito  de estar com eles”.

O guarda, com razão, pensou estar diante de um paranóico destes que se apresentam como Cesar ou Napoleão. Chamou o chefe da guarda que tudo ouvira. Este o agarrou pelos ombros e lhe disse com voz alterada: ”Aqui não é um hospital psiquiátrico. Só um louco imagina que os Cardeais são seus representantes”.

Mandou que o  entregassem ao chefe de polícia de Roma. Lá, no prédio central, repetiu o mesmo pedido: “preciso falar urgentemente com meus representantes, os Cardeais”. O chefe de polícia nem se deu ao trabalho de ouvir direito. Com um simples gesto determinou que fosse retirado. Dois fortes policiais  o jogaram numa cela escura.

De lá de dentro continuava a gritar. Como ninguém o fizesse calar, deram-lhe murros na  boca e muitos socos. Mas ele, sangrando, continuava a gritar:”preciso falar com meus representantes, os Cardeais”. Até que irrompeu cela adentro um soldado enorme que começou a golpeá-lo sem parar até que caisse desmaiado. Depois amarrou-lhe os braços com um pano e o dependurou em dois suportes que havia na parede. Parecia um crucificado. E não se ouviu mais gritar:”preciso falar com meus representantes, os Cardeais”.

Ocorre que este misterioso personagem não era cardeal, nem patriarca, nem metropolita, nem arcebispo, nem bispo, nem padre, nem batizado, nem cristão, nem católico. Era um simples homem, um judeu da Galiléia. Tinha uma mensagem que poderia salvar a Igreja e toda a humanidade. Mas ninguém quis ouvi-lo. Seu nome é Jeshua.

Qualquer semelhança com Jesus de Nazaré, de quem os Cardeais se dizem representantes, não é mera coincidência mas a  pura verdade.

“Veio para os seus, e os seus não o receberam” observou mais tarde e  tristemente um seu evangelista.

Leonardo Boff, Teólogo

Come As You Are

Por Fred Reis,

Hoje, seis de março do ano da graça de 2013, concluiu-se mais um projeto de desgraça, uma espécie de crônica anunciada, mais um jovem talento perdeu a batalha da vida. Alexandre Magno Abrão, vulgo Chorão, no alto de seus quarenta e dois anos faleceu vitima de uma vida repleta de insights de morte. Nada de novo debaixo do sol, também Amy Winehouse , Kurt Cobain, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison abreviaram aquilo que chamavam de vida. Em comum, indivíduos que trilharam por uma via fluorescente e que sinalizavam a exaustão de sua esperança. Como já afirmara um poeta: “o pop não poupa ninguém”.
O maior problema, não reside na morte prematura, mas no rascunho pálido de vida que experimentaram. Os indivíduos ditos pós-modernos, perdem-se cada vez mais na impossibilidade de uma explicação, que seja mítica, contudo plausível à morte, numa espécie de negação de sua finitude e fugacidade.
A partir deste binômio podemos admitir que ninguém é jovem demais para morrer. O que não se pode admitir é a construção de um modo de viver leviano, que teme a existência e suas conseqüências.
Em contraposição aos que submetem seu existir ao medo, podemos lembrar-nos de um jovem que com ousadia levantou-se contra um império e sua ordem constituída. No alto de seus trinta anos Jesus de Nazaré, inaugurou um tipo de vida que demonstrava- se plena e abundante. No miolo de sua história, encontra-se a crônica de sua morte, um evento com tal intensidade que resignificou o modo de vida de todos nós. Seu sofrimento e morte estão longe de serem incidentais e involuntários. São fruto de uma vida apaixonada que leva às últimas conseqüências a experiência do amor. Sua vida é, pois, acima de tudo, a história de uma paixão radical que o levou a paixão de uma história. Na cruz Deus participa das minhas dores e imperfeições, um projeto de graça e misericórdia concedido aos que aceitam seu convite.
“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.”
Mateus 11 verso 28
Venha Como Você Estiver
(come as you are)

Enlouquecidos pela Religião

uruguaianaÉ estranho como alguns fatos parecem me perseguir. Ontem eu estava no camelódromo da Uruguaiana, um conhecido centro de compras popular, no Rio de Janeiro. Eu estava comprando um carregador para celular e, enquanto eu negociava com o vendedor, comecei a ouvir uma conversar mais exaltada vinda do stand de vendas que ficava em frente. Neste primeiro momento, era possível ouvir algumas palavras familiares sendo pronunciadas com certo medo, entre elas: Deus.

tabacariaQuando terminei de comprar o produto, pude entender melhor a cena. Um homem alto e magro, na casa dos seus trinta anos, vestindo bermuda, camiseta e chinelo, segurando um cigarro recém-comprado, discutia calorosamente com a vendedora do stand, que era uma tabacaria. Pelo que percebi, a vendedora, que parecia ter certa intimidade com o cliente, havia estranhado o fato de ele estar comprando um cigarro, já que o mesmo, em tempos passados, havia entrado para uma igreja e abandonado o vício.

arrancando-os-cabelos-300x195Ao ser questionado, o homem foi tomado por um grande assombro, parecia transtornado, enlouquecido, fora de si. Ele começou então a dizer repetidamente, em alta voz, de modo atropelado: “Eu fui pra igreja, mas não consegui abandonar o cigarro. Eu fiz Jejum, orei no monte, fiz tudo que eles mandaram, mas não adiantou nada, estou do mesmo jeito, até pior”. Ele foi interrompido pela vendedora da tabacaria que citou para ele um clichê evangélico extraído de um antigo hino: “Mas está escrito: ‘Eu venho como estou’”.

Neste momento, o transtorno do homem cresceu exponencialmente. O pavor era transparente em seus olhos. Então ele começou a dizer: “Eu fui como estava, mas agora é pior porque eu sei os estatutos de Deus e estou fazendo o que ele não gosta. Deus vai me castigar e agora vai ser muito pior”. A garota da tabacaria retrucou: “Mas Deus é amor”.

O homem caminhou rapidamente em direção à garota, apontando o dedo, quase gritando: “Deus é amor, mas também é justiça. Ele é um fogo consumidor. Agora ele vai me castigar, vai acabar comigo. Eu não tenho desculpas, mas não tem jeito, eu jejuei, fui ao monte, eu fiz tudo, mas não consegui. Vai ser pior agora. Vai ser pior agora”.

O rapaz deu uma tragada profunda em seu cigarro e saiu apressadamente pela rua, transtornado, repetindo suas últimas palavras: “Vai ser pior agora”.

A cena ficou gravada como um filme em minha mente e, enquanto eu caminhava em direção à estação das Barcas, fui fazendo algumas reflexões.

de-onde-vem-seu-medo-6-40É extremamente ruim o que boa parte das igrejas anda fazendo com as pessoas, pois ensinam um conceito de Deus que mais adoece os homens do que trás cura. Ensinam um Deus impossível de se relacionar. Um Deus que está lá longe e precisa ser agradado a qualquer preço, pois caso não seja agrado não se fará de tímido na hora de castigar e punir. Falam que Deus ama, mas ama condicionalmente. Ama aqueles que fazem tudo direitinho, tudo certo, que cumprem todos os mandamentos, tantos os da bíblia como os inventados pela religião/tradição. Neste sentido, Deus se torna a própria personificação do mal, do pavor, do medo, pois ninguém faz tudo certinho. Aquele pobre homem sentia um pavor louco de Deus. Ele cria em Deus, mas estava esperando apenas o momento em que Deus o sentenciaria, sem dó nem piedade, por conta do seu cigarro, dos seus vícios. Pobre alma atormentada por um arquétipo divino inventado pelos homens.

Já faz um tempo que, no alto das minhas crises com a igreja institucionalizada, eu cheguei a pensar que seria melhor não levar mais ninguém para igreja, pois as igrejas estavam deixando as pessoas piores do que antes. Hoje, não penso de maneira tão radical, mas não sai da minha cabeça que para muita gente era melhor nunca ter conhecido ou entrado em determinadas igrejas. O homem em questão é um exemplo. A igreja o enlouqueceu, o transtornou. Ele anda pelas ruas com medo e pavor, pensando que Deus está de tocaia em cada esquina ou poste esperando ele passar para acertar as contas.

medo1Alguém pode dizer que este homem é uma exceção. Eu digo que é uma exceção comum que está virando regra. Tenho encontrado com diversas pessoas com os mesmos sintomas, os mesmos medos, os mesmos pavores, mas só que em menor escala. Os hospitais psiquiátricos estão abarrotados de loucos religiosos. Encontro pessoas apavoradas porque faltaram um culto, uma vigília, porque deram menos de 10% de dízimo em um mês. Encontro pessoas que cometeram um erro e não conseguem se livrar da culpa, não conseguem sentir o perdão e a cura. E os líderes ainda colaboram para o transtorno , já que vivem dizendo: “Quem perdeu o culto tal, perdeu a bênção”, “Quem perdeu a vigília, perdeu a bênção”, “Quem não deu o dízimo não vai ser abençoado”. E por aí vai. Recursos mesquinhos para encher templos, mas que podem causar grandes problemas no relacionamento das pessoas com Deus.

O clichê evangélico usado pela vendedora da tabacaria – “Eu venho como estou” – deveria deixar de ser um mero clichê para se tornar uma realidade experiencial da igreja. Na verdade, deveríamos entender e ensinar que podemos e devemos ir como estamos a Deus, não somente uma vez, mas todos os dias das nossas vidas. Jesus me mostrou que Deus não está de braços abertos somente para aqueles que fazem tudo certinho e cumprem todos os rituais inventados pela religião, mas o está principalmente para os pecadores que se assumem como tais. Por isso, João diz: “Se alguém diz não ter pecado é mentiroso”. E ainda: “Escrevo estas coisas para que ninguém peque, mas, se alguém pecar, temos um advogado junto a Deus, a saber: Jesus Cristo, o justo”. Isso porque “Ainda não somos o que haveremos de ser”.

carinho deusMeu convite a você é para que você vá a Deus todo dia, toda hora, sem medo, sem pavor. Vá sempre como você estiver, do jeito que você é. Quando você falhar, saiba que o mundo inteiro poderá atirar pedras, mas Deus será o primeiro a oferecer o perdão e a cura. Quando você se achar a pior pessoa do mundo, corra para o colo do Pai, pois as mãos dele não irão pesar sobre sua cabeça, mas irão acariciar o seu rosto e enxugar dos seus olhos toda lágrima. Não perca tempo. Não tenha medo. Vá sempre a Deus do jeito que você estiver. E lembre-se, como diz Ed René Kivitz: “O amor de Deus só é suficiente para que você não viva de qualquer jeito se você tiver consciência que Deus vai continuar lhe amando mesmo se você viver de qualquer jeito”.

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